quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Navegando em terra

Não te consigo ouvir pelo ruído nervoso de quem não nos vê a silhueta na ombreira da porta e nos grita obscenidades lançadas como balas perdidas no espaço vazio. Acho que também eles não nos ouvem, pela péssima acústica da nossa voz.
Nesta correria do mata-esfola, fugimos como bêbados ensopados no néctar da nossa razão absoluta, que brota da sua sede para cair infértil nos braços da morte que nos olha num pranto em silêncio.
Vivemos num mundo insano, direi.

O que estamos a fazer?

Caminha, coberto de gelo. Não me soltes do teu pulso e guia-me por um inverno interminável, entre o conforto do leito de neve e o reflexo na superfície gelada que tocas.
Morde-me os ossos num desdém cuidadoso, faz minha a tua dor, mas não desvies o olhar, pois tornar-me-ei pó.
Amo-te, mas pertenço ao inverno que assobia o meu nome no vento frio da madrugada.

Trepando árvores

Deixa a maré subir e não cubras as estrelas que iluminam as minhas costas. Mas se tiveres que ir, leva contigo as nossas horas que persistem no calor do verão e no verde da primavera. Leva contigo a noite, mas deixa-me a lua, minha companhia.
Leva o que quiseres, e desamarra o meu espírito das tuas correntes que fazem de mim teu servo, que me queimam os pulsos como brasas ardentes.
Os ponteiros acusam o final do dia, desferindo golpes na minha paz eminente.
Um dia agradecerás por não termos ficado.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O mundo é estático

A poesia que de ti emerge soa barafusta onde a minha casa fica. Escrita em letras grandes nas paredes do meu quarto, amante da minha insanidade ou clarividência, impregnada com o cheiro de papel queimado que resta debaixo do meu pé. As cinzas mantêm-se suspensas, como partículas dos meus ossos, forçadamente estáticas pela janela trancada, esperando por uma brisa trazida pela morte que as liberte do seu estado tolhido por um amor ignorado.
A minha prosa, escrita em cima da minha cama, procura contar outra história, escrita pelo suor febril e vazio, consequência de um amor imensurável e esguio como a minha sombra. Silencioso, paciente e sempre presente, preso na minha traqueia, inundando os meus ouvidos e turvando a minha visão, como gotas de água que ecoam na minha mente a um compasso desorientado.
Uma poesia que todos lêem, mas que poucos optam por a não ignorar.